Como foi chegar ao trabalho na segunda-feira depois do resultado das eleições?
Talvez você tenha encontrado colegas comemorando. Outros, decepcionados. Alguns preferiram não tocar no assunto. Houve quem chegasse disposto a analisar cada detalhe da votação e quem simplesmente desejasse começar a semana sem falar de política.
Talvez tenha havido brincadeiras, provocações ou aquele silêncio desconfortável que aparece quando todos sabem que pensam de maneira diferente, mas ninguém quer iniciar uma discussão.
Independentemente do resultado, as pessoas continuaram sendo as mesmas. Aquele colega com quem você divide projetos, o profissional que admira, o vizinho que sempre o cumprimenta, o familiar que faz parte da sua história.
Mas será que continuamos enxergando essas pessoas da mesma maneira depois de descobrir suas escolhas eleitorais?
Em tempos de polarização, uma preferência partidária pode se tornar suficiente para modificar nossa percepção sobre alguém. O outro já não é alguém com uma história, experiências, contradições e sentimentos. É alguém que votou neste ou naquele candidato. Não duvido, inclusive, que a divergência partidária seja apenas uma desculpa para externar o mal-estar, a antipatia por outrem que já havia, mas estava "debaixo do tapete".
Aquele seu amigo ou parente querido deixou de ser alguém digno da sua admiração por ter opinião diversa? E talvez uma das perguntas mais importantes depois das eleições seja justamente esta: o que estamos dispostos a perder para defender aquilo em que acreditamos?
A Política vai além das urnas
A Política entendida por Aristóteles como medidas para promover o bem do próximo acima dos próprios interesses está presente nas decisões que afetam nossa vida, nos direitos que exercemos e nas responsabilidades que compartilhamos, no cotidiano. Quando uma comunidade decide como utilizar um espaço coletivo, uma escola discute suas prioridades, uma equipe estabelece regras de convivência ou alguém reivindica condições mais justas, estamos diante de escolhas que envolvem interesses, valores e responsabilidades em processos de liderança.
Somos seres políticos e isso é inegável. Tentar abafar isso de discussões dizendo que “não se deve falar de política para não criar dissensões” é uma grande armadilha, pois a política, compreendida como participação na vida em sociedade, atravessa nossa existência. Bertolt Brecht já falou sobre isso em "O Analfabeto Político", que reproduzo abaixo:
O Analfabeto Político
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo.
Uma sociedade democrática precisa de pessoas capazes de pensar, questionar, participar e defender ideias. O problema não está na existência das diferenças, mas na maneira como lidamos com elas. Podemos discordar profundamente de uma proposta e ainda reconhecer a dignidade de quem a defende. Criticar uma decisão sem transformar seus apoiadores em inimigos. Sustentar nossas convicções sem exigir que todos compartilhem a mesma visão de mundo.
Parece simples quando colocado em palavras. Na prática, exige uma maturidade que nem sempre estamos dispostos a exercitar.
É perfeitamente possível discutir Política sem falarmos de política partidária. Afinal, os partidos políticos, por sua vez, têm ideologias e regras próprias que não são universais, mas a política como algo inerente à vida social é sim, como vimos acima.
E cá entre nós, sabemos que a política corporativa precisa ser entendida e praticada de forma assertiva, mas não ingênua, algo fundamental em níveis de Executive Search e C-Level. Isso não é segredo para ninguém, principalmente para os mais experientes. Certa vez, em estágio ainda na graduação, ouvi de um colega mais velho que uma amiga era mais política do que eu nas relações institucionais. Ali, no contexto e com 20 e poucos anos, não alcancei a profundidade daquele ensinamento. Hoje, quase 20 anos depois, entendo bem.
O que a intolerância nos faz perder?
A intolerância empobrece a convivência porque substitui a curiosidade pelo julgamento e a possibilidade de aprendizado pela certeza de que nada temos a receber de quem pensa diferente. No limite, ela compromete justamente aquilo que a vida democrática exige: a capacidade de compartilhar espaços e responsabilidades com pessoas que não são iguais a nós.
Durante as campanhas eleitorais, essa dinâmica costuma se intensificar. Mas seus efeitos não desaparecem com a apuração dos votos. As conversas continuam, assim como as certezas que construímos sobre aqueles que discordam de nós. Quando o objetivo é vencer uma discussão, ouvir passa a parecer uma concessão desnecessária.
Em nome da convivência, às vezes confundimos respeito com a obrigação de aceitar qualquer discurso sem contestação. Mas o respeito não exige silêncio diante da violência, da discriminação ou da negação de direitos. A diversidade democrática pressupõe a possibilidade de coexistirem opiniões, crenças, origens, culturas e experiências distintas. Não exige tolerância irrestrita a comportamentos que ameaçam essa própria coexistência.
Por isso, estabelecer limites também faz parte de uma comunicação respeitosa. É possível interromper uma conversa ofensiva sem recorrer à humilhação. Rejeitar uma afirmação discriminatória sem transformar a discussão em uma competição de insultos. Ser firme e respeitoso ao mesmo tempo.
Talvez essa seja uma das distinções mais necessárias quando falamos de tolerância. Respeitar alguém não implica considerar todas as suas ideias aceitáveis. Assim como criticar uma ideia não autoriza desumanizar quem a expressou.
Afinal, a célebre frase atribuída a Evelyn Beatrice Hall (frequentemente associada a Voltaire): "Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo", reflete exatamente isso.
A diversidade que defendemos e a que suportamos
É relativamente fácil valorizar a diversidade quando ela se apresenta de maneira agradável, distante ou compatível com nossas preferências, dentro da nossa “bolha”. Nesses momentos, nossas declarações sobre respeito são colocadas à prova. E talvez precisemos reconhecer uma contradição frequente: desejamos ser compreendidos em nossas particularidades, mas nem sempre oferecemos ao outro a mesma disposição.
Queremos liberdade para expressar nossas opiniões, desde que as opiniões alheias não nos causem desconforto. Defendemos o diálogo, desde que ele não coloque nossas certezas em questão. Celebramos a pluralidade, mas nos aproximamos cada vez mais de pessoas que pensam como nós.
Por outro lado, existe uma distância entre proteger-se de uma relação prejudicial e rejeitar automaticamente qualquer pessoa que pense diferente.
Quando deixamos de fazer essa distinção, corremos o risco de reduzir nossas possibilidades de encontro. E uma sociedade composta apenas por grupos que conversam entre si dificilmente conseguirá construir soluções para problemas que afetam a todos.
Depois das eleições, o que permanece?
Passados os dias de campanha, as discussões nas redes sociais e a expectativa pela apuração, retornamos àquilo que sempre esteve diante de nós: a vida cotidiana.
Continuamos precisando de escolas, hospitais, trabalho, segurança, oportunidades e relações humanas que tornem a existência possível. Nenhuma dessas necessidades pertence exclusivamente a um grupo de eleitores.
Talvez seja importante lembrar disso quando a vontade de transformar uma divergência em confronto parecer maior do que a disposição para conversar. A democracia não se resume ao direito de escolher representantes. Ela também depende da capacidade de reconhecer que a sociedade continuará sendo plural depois de cada eleição.
Isso não pede indiferença diante das injustiças, abandono de princípios ou uma cordialidade artificial que esconda conflitos reais. Pede responsabilidade com a palavra. Disposição para distinguir fatos de boatos, argumentos de ofensas, críticas de ataques pessoais.
Pede coragem para defender aquilo em que acreditamos sem esquecer que a pessoa diante de nós também possui uma história que não cabe em uma legenda, uma bandeira ou um número de urna.
Talvez o maior desafio não seja conversar com quem pensa como nós. Seja aprender a conviver com quem pensa diferente sem perder a capacidade de reconhecer sua humanidade. É nessa convivência, muito além dos períodos eleitorais, que demonstramos o quanto realmente compreendemos o valor da democracia.
Porque a política partidária pode até nos colocar em lados diferentes de uma disputa. Mas não deveria nos fazer esquecer que continuamos compartilhando o mesmo mundo.
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