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Há mais de duas décadas, as palavras fazem parte da minha vida profissional. Sou jornalista, escritora e trabalho no mercado editorial. Leio, escrevo, reviso e ajudo outras pessoas a transformarem ideias e experiências em textos. Talvez por isso, desenvolvi o hábito de prestar atenção não apenas ao que as pessoas dizem, mas às histórias que construímos a partir daquilo que ouvimos, e, principalmente, daquilo que não ouvimos.
É desse lugar que nasce a coluna Entrelinhas. Curiosamente, esse título também foi a marca do primeiro jornal de turma que participei, ainda no início da Graduação, em 2004.
Esta coluna não pretende oferecer fórmulas para relações humanas. Desconfio, aliás, de quase todas elas. Pessoas são complexas demais para caber em manuais. Minha proposta é outra: usar as palavras, a escrita, a literatura, as histórias e situações aparentemente comuns como pontos de partida para algumas provocações.
Aquelas que, quem sabe, continuem conosco depois que a leitura terminar.
Quero conversar sobre o que existe nas entrelinhas das nossas relações: expectativas, interpretações, julgamentos, silêncios, desencontros, afetos e palavras.
Sobre a forma como enxergamos o outro e, talvez ainda mais importante, sobre aquilo que esse olhar revela a respeito de nós mesmos. Para isso trarei em alguns momentos, livros e/ou personagens; em outros, apenas a rica superficialidade do dia a dia, como fazem os cronistas. Gênero com o qual me identifico bastante, inclusive.
E começo por uma história que todos nós, em algum momento, já escrevemos:
Um roteiro de expectativas
Quem escreve ficção sabe que personagens podem ser surpreendentes. Você imagina determinada trajetória, começa a escrever e, em algum momento, percebe que aquela personagem parece não querer seguir o caminho inicialmente traçado.
Na vida, fazemos algo parecido, com uma diferença importante: tentamos escrever personagens que não nos pertencem.
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Imaginamos como alguém deveria reagir. Em geral, da nossa forma, por ser a melhor, claro!
Esperamos que determinada pessoa perceba que estamos incomodados ou que precisamos de ajuda, sem verbalizar. Na expectativa de que o outro nos leia a mente, esquecemos que, na maioria das vezes, esse superpoder não está ativado...
Também há o agradecimento que não chega, uma iniciativa que considerávamos óbvia, uma resposta na intensidade que julgávamos adequada.
Às vezes pensamos: “Se fosse comigo, eu teria feito diferente”.
E essa pequena frase merece atenção. Porque o outro não é você. Não é sobre você. É sobre o outro!
Ainda assim, silenciosamente, vamos escrevendo um roteiro para ele. Especialmente quando estamos em posição de liderança, esse é um movimento quase natural.
Nele estão as falas que deveria dizer, as atitudes que deveria tomar, a consideração que deveria demonstrar e até o momento em que deveria fazer cada uma dessas coisas.
Há apenas um problema: esquecemos de avisar ao outro sobre isso e nem sempre lhe entregamos o roteiro das nossas expectativas. Depois nos frustramos porque ele não decorou as falas.
Expectativas também contam histórias
Expectativas fazem parte das relações. Seria pouco realista imaginar uma vida sem elas. Esperamos determinados comportamentos de amigos, familiares, parceiros, colegas e das pessoas com quem compartilhamos projetos.
O problema talvez não esteja em esperar. E sim, em transformar a nossa expectativa, que obviamente é cristalina para nós, em cobrança para o outro. Afinal, é claro que:
- “Ele deveria ter percebido.”
- “Ela deveria saber.”
- “Nem precisava pedir.”
- “Depois de tanto tempo trabalhando comigo, já deveria me conhecer.”
São frases aparentemente banais. Mas observe o que existe por trás delas: uma expectativa que, muitas vezes, nunca foi transformada em comunicação.
Imagine alguém que valorize profundamente receber retorno sobre aquilo que faz. Entrega um trabalho importante e espera algum comentário. Os dias passam e nada acontece. Aos poucos, o silêncio começa a ganhar significado: “Não gostaram”. Depois: “Meu trabalho não é valorizado”. Talvez chegue a: “Aqui ninguém reconhece meu esforço”.
Pode ser verdade, mas também pode não ser. Do outro lado, talvez exista alguém que pense exatamente o contrário: “Se não falei nada, é porque está tudo certo. Se houvesse algum problema, eu avisaria”.
Duas pessoas. Um silêncio. Dois significados opostos, consequentemente, com comportamentos divergentes. Enquanto uma não se sente valorizada, o outro não viu necessidade de reconhecer por já ter validado.
Daí a importância de estarmos atentos aos perfis comportamentais das nossas equipes, sejam profissionais ou pessoais (alguém discorda que a família e amigos também são equipes e têm suas nuances?) e de como nos colocamos com a finalidade de nos comunicarmos de forma assertiva e alinhada com o outro.
Sabemos dos assessments em processos de Executive Search e de ferramentas que ajudam nesse processo no meio corporativo, mas muitas vezes, a disponibilidade interna de se conectar com o outro, lembrando de que é apenas mais uma alma humana, assim como você, já faz muita diferença. Assessment não substitui humanidade, gentileza, compreensão, solidariedade, empatia.
O espaço do não dito
É nesse espaço do não dito que nascem muitas das nossas entrelinhas. Nós também somos narradores. Porém, assim como na literatura nem todo narrador é absolutamente confiável, nós também não. Ele nos apresenta os acontecimentos a partir de um ponto de vista. Escolhe o que contar, aquilo a que dará importância, o que deixará de fora. Assim como, também narramos acontecimentos para nós mesmos e decidimos acreditar na versão mais conveniente. É onde entram as nossas crenças limitantes, vieses cognitivos e toda a nossa bagagem.
Veja o fato simples: Alguém não respondeu à mensagem.
Interpretação: “Não respondeu porque não considera o que eu disse importante.”
Motivo: A pessoa apenas estava atarefada.
Repare: ao interpretarmos que a nossa mensagem não foi tida como importante, o que está em questão é a necessidade de validação, escuta, acolhimento, que ao ter sido frustrada, gerou essa certeza. A Comunicação Não Violenta trata exatamente disso, e em alguns livros é possível encontrar as listas das necessidades e sentimentos despertados a partir delas e como fazer o pedido, buscando o entendimento.
Quando interpretamos estamos focando em nós, mas é sobre o outro lembra?
Não seria mais fácil simplesmente perguntar o que houve e buscar a clareza?
É claro que há situações em que nossas interpretações estarão corretas, porém é preciso estar atento.
Quando o fato terminou e a história que contamos sobre ele começou?
Essa talvez seja uma das perguntas mais úteis que podemos levar para nossas relações.
O outro também carrega um mundo que não vemos
Existe ainda outra dificuldade: conhecemos nossas próprias intenções, mas enxergamos apenas o comportamento dos outros.
Eu sei que não respondi porque estava cansada. Do outro lado, vejo apenas que não respondeu.
Eu sei que minha frase foi curta porque estava preocupada com outra coisa. Porém, quando alguém faz o mesmo comigo, posso interpretar como frieza.
Conhecemos os bastidores da nossa própria história. Dos outros, quase sempre assistimos apenas à cena que chegou até nós.
E talvez seja por isso que convivência exija algo que nem sempre praticamos: curiosidade.
Não aquela curiosidade invasiva sobre a vida alheia, mas a disposição para admitir que pode existir uma explicação que ainda não conhecemos.
- “Será que entendi corretamente?”
- “Será que deixei claro o que esperava?”
- “Será que existe alguma coisa que eu não estou vendo?”
São perguntas pequenas, mas capazes de interromper grandes histórias que já começávamos a escrever sozinhos.
Esperávamos disponibilidade, reconhecimento, determinada postura, que alguém percebesse nossas necessidades. E, quando isso não acontece, sentimos que houve uma espécie de quebra de acordo.
Mas havia realmente um acordo ou havia apenas um roteiro?
Essa distinção não elimina responsabilidades. Relações pessoais e profissionais possuem compromissos, limites e responsabilidades que precisam ser respeitados. Não se trata de justificar comportamentos inadequados dizendo que “era apenas expectativa”.
Trata-se de distinguir aquilo que foi combinado daquilo que foi imaginado.
Porque são coisas diferentes.
E talvez boa parte das nossas frustrações esteja justamente na distância entre as duas.
Rasgar o roteiro não significa não esperar nada
Talvez alguém leia até aqui e conclua que a solução seria simplesmente não criar expectativas. Não acredito nisso. Expectativas também expressam aquilo que valorizamos. Se espero reciprocidade, provavelmente valorizo reciprocidade. Se desejo reconhecimento, talvez ele seja importante para mim. Se fico frustrada quando não sou ouvida, possivelmente a escuta ocupa um lugar significativo na maneira como construo relações.
Por isso, uma expectativa frustrada pode trazer uma informação interessante.
Não apenas sobre o outro.
Sobre nós.
Em vez de perguntar somente “Por que essa pessoa não fez o que eu esperava?”, talvez possamos acrescentar outra pergunta:
“Por que era tão importante para mim que ela fizesse?”
A resposta pode revelar necessidades, valores, inseguranças, limites e desejos que ainda não tínhamos nomeado.
Nesse sentido, olhar para as entrelinhas não é tentar descobrir o que o outro “realmente quis dizer”. É também perceber o que nós colocamos naquele espaço.
Talvez seja preciso conversar
Escrever tem uma vantagem: permite voltar à frase, apagar, substituir uma palavra, reorganizar um parágrafo.
Relações não oferecem exatamente o mesmo recurso.
Não podemos editar uma conversa que já aconteceu. Mas podemos começar outra.
Podemos perguntar antes de concluir.
Explicar antes de cobrar.
Dizer aquilo que esperávamos em vez de esperar indefinidamente que o outro descubra.
E podemos aceitar algo particularmente difícil: mesmo depois de tudo ser dito com clareza, o outro talvez continue não fazendo aquilo que gostaríamos.
Porque comunicar uma expectativa não significa garantir que ela será atendida.
Significa apenas retirar o outro da obrigação impossível de adivinhá-la.
Depois disso, temos informações mais reais para decidir como lidar com aquela relação.
Talvez seja necessário negociar, compreender, estabelecer um limite, ou simplesmente aceitar que o outro faria diferente de nós, e isso não significa necessariamente errado.
O que você escreveu para os outros sem perceber?
Talvez exista hoje alguém que esteja decepcionando você.
Um colega. Um amigo. Alguém da família. Uma pessoa com quem você compartilha um projeto ou simplesmente a vida.
Antes de concluir alguma coisa sobre ela, experimente imaginar que existe uma folha de papel entre vocês.
De um lado, aquilo que efetivamente aconteceu. Do outro, tudo o que você esperava que acontecesse.
Quanto dessa segunda parte foi realmente dito?
Quanto foi combinado?
E quanto existia apenas dentro de você?
Talvez você descubra que o outro falhou com um compromisso que realmente havia assumido.
Nesse caso, há uma conversa importante a ser feita.
Mas talvez descubra algo diferente: que, sem perceber, escreveu falas, gestos e atitudes para uma personagem cuja história não controla.
É possível que parte da convivência seja justamente aprender a fazer essa distinção.
Continuaremos criando expectativas, interpretando comportamentos, contando histórias sobre aquilo que vivemos. Faz parte de sermos humanos.
Talvez possamos apenas nos tornar leitores um pouco mais atentos das histórias que nós mesmos escrevemos.
Principalmente quando colocamos outras pessoas dentro delas.
Porque o outro pode dividir conosco uma equipe, uma casa, um projeto, uma amizade ou uma vida inteira.
Mas há uma coisa que ele nunca recebeu: o roteiro que escrevemos para ele. E na trama da vida, o roteiro é alheio à nossa vontade.
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