Foto: Divulgação
Neste artigo exclusivo, Patricia Punder, advogada e CEO da Punder Advogados, em conjunto com Marcio Lucas, executivo de auditoria, riscos e compliance do Grupo Brasanitas, analisam os impactos comportamentais da Inteligência Artificial no C-Level. A tecnologia, celebrada por ampliar a capacidade analítica e a eficiência operacional, traz um risco menos discutido: a tendência de executivos transferirem a responsabilidade de decisões críticas e relevantes para as recomendações dos algoritmos.
O conforto da recomendação tecnológica
A inteligência artificial entrou no ambiente corporativo sob uma forte narrativa de eficiência e velocidade. Sistemas avançados de fato processam volumes massivos de informações e reconhecem padrões complexos, oferecendo bases sólidas para escolhas intrincadas. Contudo, segundo os especialistas, há uma transformação comportamental silenciosa nas estruturas de poder: a possibilidade de o executivo usar a IA para "decidir melhor" e, simultaneamente, se resguardar da autoria de uma escolha que possa fracassar.
Nas salas de conselho e diretorias, decisões de alto impacto, como fusões, aquisições (M&A) ou contratações, frequentemente ocorrem sob pressão e com dados incompletos. Historicamente, as empresas tentam diluir esse risco através de comitês ou consultorias externas. A IA amplifica essa prática, pois suas recomendações não soam como a opinião de terceiros, mas como o resultado incontestável de dados probabilísticos que um ser humano não conseguiria processar sozinho.
Se o sistema apresenta um alto grau de confiança e o executivo o segue, o respaldo técnico está garantido. Caso a decisão falhe, a justificativa é que "aquela era a melhor análise disponível". Em contrapartida, discordar do algoritmo tornou-se custoso: errar após ignorar a ferramenta adotada pela companhia exige pesadas explicações perante o Board.
A assimetria na atribuição de méritos e falhas
Há uma assimetria clara no ambiente corporativo: quando a decisão orientada por IA resulta em sucesso, o mérito recai sobre a visão estratégica, a inovação e a boa gestão do líder executivo. Contudo, diante de consequências negativas, a narrativa muda, focando no modelo, nos dados, no fornecedor tecnológico e nos limites do sistema. A tecnologia passa a compor a justificativa para o fracasso.
Foto: Divulgação - Patricia Punder, advogada e CEO da Punder Advogados
Administradores sempre confiaram em pareceres de especialistas, mas a IA traz um distanciamento maior entre a conclusão fornecida e a capacidade humana de auditá-la. A crença de que uma decisão "orientada a dados" é estritamente objetiva ignora que escolhas de C-Level envolvem interesses, reputação e impactos sociais que as variáveis matemáticas não conseguem abranger integralmente.
Validação seletiva e a ilusão do controle humano
Outro fenômeno observado é a "validação técnica seletiva". O executivo pode usar a IA para fundamentar uma decisão quando esta corrobora suas próprias convicções. Se a ferramenta aponta para um caminho divergente, surgem argumentos sobre "contexto", "exceção" ou a necessidade de "julgamento humano", mantendo os vieses e interesses originais sob o manto de uma suposta validação tecnológica.
Uma métrica relevante para os conselhos é a taxa de discordância (override) das recomendações. Índices excessivamente baixos podem indicar não apenas a precisão do sistema, mas também a falta de tempo dos gestores para revisão, ou mesmo o receio de exposição profissional ao contrariar o algoritmo. A manutenção da assinatura e aprovação formal do líder pode, em muitos casos, servir apenas para preservar uma "aparência" de supervisão.
Foto: Marcio Lucas executivo de auditoria, riscos e compliance do Grupo Brasanitas
O alerta dos especialistas é claro: políticas de governança, controles e validações técnicas em IA não são suficientes se não avaliarem a mudança no comportamento executivo. O Conselho de Administração precisa enxergar além da matriz de alçadas, compreendendo que a maneira de decidir na empresa já se alterou, especialmente quando concordar com a máquina se tornou o caminho corporativo mais seguro e confortável para os gestores.
Sobre Patricia Punder: Partner e fundadora do escritório Punder Advogados no modelo de negócios “Boutique”, unindo excelência técnica e visão estratégica na advocacia. Com 17 anos dedicados ao Compliance, atua no Brasil, América Latina e mercados emergentes, sendo referência em Compliance, LGPD e ESG. É professora na FIA/USP, UFSCAR e LEC, além de possuir certificações internacionais e atuar como perita judicial.
Sobre Marcio Lucas: É executivo de Auditoria, Riscos e Compliance do Grupo Brasanitas, com vasta experiência em governança e decisões estratégicas. Trabalha próximo à alta administração para integrar controles à estratégia corporativa e atua na aplicação de inteligência artificial na governança para aprimorar o monitoramento e a tomada de decisão.
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