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Coluna Exclusiva: CADEIRA E PALCO • por Léo Kaufmann

O Cargo Garante o Convite. Quem Prepara o Executivo Para o Palco?

Preparar executivos para palestras, entrevistas e painéis também é cuidar da marca, da carreira e das oportunidades de negócio.

A empresa confirma a participação, a assessoria envia uma biografia de três páginas, o marketing prepara a apresentação institucional e alguém pergunta se haverá monitor de retorno, tudo aparentemente encaminhado para o executivo subir ao palco. No meio dessa organização, porém, uma conversa importante pode ter ficado para depois: o que aquela pessoa tem a oferecer ao público e quanto está preparada para sustentar a expectativa que seu nome, seu cargo e sua empresa criaram?

Existe uma confiança bastante generosa na capacidade de um cargo resolver essa etapa, como se presidir uma empresa, liderar milhares de profissionais ou administrar um orçamento relevante viesse acompanhado da habilidade de organizar argumentos e explicar decisões diante de uma plateia. Quem trabalha com conteúdo e curadoria conhece a distância entre essas competências, porque já encontrou profissionais com trajetórias extraordinárias que tiveram dificuldade para compartilhar a própria experiência, embora tivessem muito a ensinar.

Experiência oferece matéria-prima, mas a apresentação precisa ser construída, com escolhas sobre o que contar, quanto contexto oferecer e qual contribuição aquela conversa pretende deixar. Quando esse trabalho é ignorado, o profissional e a marca ficam expostos a uma aposta: a de que o prestígio anunciado na abertura será suficiente para sustentar o interesse até o encerramento.

Quando a biografia promete uma coisa e o palco entrega outra

Eu já assisti a um VP de uma grande empresa tremer no palco, completamente dependente de uma colinha na mão, sem a qual praticamente não conseguia falar, enquanto lia o conteúdo e avançava por slides que davam a impressão de terem sido construídos sem a participação dele. A falta de familiaridade era tão perceptível que, em vez de acompanhar a experiência de alguém que dominava o assunto, a plateia parecia acompanhar o esforço de uma pessoa para terminar uma tarefa.

Imagem ilustrativa sobre o tema

O nervosismo, isoladamente, não autoriza ninguém a questionar a competência de um profissional, assim como consultar anotações é um recurso legítimo para quem precisa organizar a fala. Naquela situação, entretanto, a combinação de insegurança, dependência do roteiro e pouca apropriação do material dificultava enxergar a experiência que havia levado aquele executivo até ali.

Saí com a impressão de que tanto ele quanto a marca tinham sofrido arranhões na imagem, uma percepção que parecia encontrar eco na reação da sala. Aqueles minutos evidentemente não resumiam sua trajetória, mas, para quem estava conhecendo o profissional naquele encontro, eram a referência disponível para formar uma opinião sobre ele.

O público não tem acesso ao histórico completo de quem está no palco, nem conhece as decisões difíceis, os resultados e as relações construídas ao longo da carreira. Se a apresentação não consegue tornar parte dessa experiência compreensível, a pessoa corre o risco de ser lembrada pelo desconforto da entrega, apesar de ter um repertório que merecia ser ouvido.

O palco também abre portas para negócios e carreiras

Uma oportunidade de fala coloca o executivo diante de pessoas que dificilmente estariam reunidas em sua sala de reunião, entre potenciais clientes, parceiros, investidores, recrutadores focados em Executive Search e profissionais interessados em trabalhar naquela organização. Cada uma chega com seus interesses, mas todas podem observar como aquela liderança pensa, explica suas escolhas e se relaciona com quem está ao redor.

Uma apresentação consistente pode iniciar uma conversa comercial, despertar interesse por uma parceria ou fazer alguém lembrar daquele profissional quando surgir uma posição relevante, especialmente quando ele demonstra conhecimento sobre um desafio que outras empresas também enfrentam. Esses desdobramentos não são automáticos, mas a fala oferece uma amostra do raciocínio e da experiência que uma biografia, por mais impressionante que seja, dificilmente consegue proporcionar.

Para o negócio, esse contato pode aproximar o reconhecimento da marca da confiança nas pessoas que a conduzem, enquanto, para a carreira, amplia a possibilidade de o executivo ser conhecido por uma contribuição que vai além do cargo atual. Quem consegue explicar como enfrentou um problema permite que outras pessoas imaginem o que poderia construir em novos contextos, com outros parceiros ou diante de responsabilidades diferentes.

A exposição também torna as fragilidades mais visíveis, o que exige cuidado com a ideia de que qualquer presença pública será positiva. Uma resposta arrogante, uma apresentação inteiramente comercial ou o desconhecimento do próprio material podem transformar uma oportunidade de aproximação em uma razão para o público manter distância.

Ser dono da empresa não significa saber representá-la em público

Muitos donos de empresa conhecem profundamente o produto, dominam os números e negociam contratos complexos, mas encontram dificuldade para participar de uma entrevista, dividir um painel ou conduzir uma palestra. Como estão acostumados a falar em reuniões e a tomar decisões, alguns entendem que conseguirão lidar com esses formatos sem preparação, desconsiderando o quanto o ambiente interno ajuda a sustentar sua comunicação.

Dentro da empresa, as pessoas conhecem as referências, completam mentalmente as explicações e nem sempre se sentem à vontade para dizer que uma resposta ficou confusa, sobretudo quando estão diante de quem decide sobre sua permanência ou promoção. Em um evento, a plateia precisa construir esse entendimento do zero, sem a familiaridade dos colegas e sem qualquer obrigação de concordar com quem está falando.

Comportamentos pouco contestados internamente também podem se tornar bastante desconfortáveis em público, como interromper os demais participantes, monopolizar o tempo ou receber uma pergunta como se fosse uma afronta. Quem assiste pode começar a imaginar como seria negociar com aquela pessoa ou trabalhar sob sua gestão, levando para a percepção da empresa uma impressão formada a partir da postura de seu representante.

A maneira como o executivo ocupa o espaço comunica algo sobre a liderança que exerce, especialmente quando ele é o fundador ou o rosto mais conhecido da organização. Ouvir, respeitar a mediação e reconhecer a contribuição de outros participantes ajudam o público a conhecer aspectos que nenhum slide sobre os valores da marca consegue demonstrar sozinho.

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Foto de Brodie do Burst

O conteúdo precisa merecer a atenção que o cargo atraiu

Antes da escolha da foto de divulgação, deveria existir uma conversa sobre por que aquela experiência merece o tempo de quem estará sentado ali, considerando o perfil do público e os desafios que o levaram ao evento. Trabalhar em uma empresa conhecida ajuda a despertar interesse, mas a plateia precisa encontrar utilidade na fala para continuar acompanhando, seja para compreender um problema, rever uma convicção ou tomar uma decisão com mais repertório.

Um executivo pode ter conduzido uma transformação relevante e chegar ao palco com generalidades sobre inovação, pessoas no centro e protagonismo, deixando de fora tudo o que tornaria a história interessante. Quem participou do processo conhece as resistências e lembra o projeto que quase parou, só que esse conhecimento não chega ao público quando a experiência é reduzida a conceitos e um gráfico apontando para cima.

Uma boa preparação editorial investiga o que havia antes, qual decisão provocou conflito, o que precisou ser abandonado e quais condições permitiram chegar ao resultado, ajudando o executivo a perceber onde está a contribuição de sua história. O valor aparece quando ele consegue explicar suas escolhas e seus limites, inclusive para que uma experiência particular não seja recebida como receita universal.

Esse cuidado também favorece os negócios, porque ajudar alguém a compreender um desafio oferece uma demonstração concreta de capacidade. Já uma apresentação ocupada por propaganda consome o tempo que poderia ser usado para construir confiança, deixando a plateia diante de promessas quando ela esperava conhecer o trabalho que sustenta aquelas promessas.

O executivo precisa participar da construção da própria fala

Marketing, comunicação e assessoria podem contribuir muito para organizar a narrativa e melhorar os materiais, mas existe um limite para o que essas equipes conseguem fazer sem a participação de quem vai apresentar. Quando o executivo recebe tudo pronto e só abre o arquivo perto do evento, assume a responsabilidade de defender uma sequência de ideias que não ajudou a construir e com a qual pode nem estar inteiramente de acordo.

A dificuldade aparece em um dado que ele não sabe contextualizar, em uma expressão que nunca usaria ou em uma pergunta que exige sair do roteiro, revelando uma distância entre a pessoa e o conteúdo. O material pode estar visualmente impecável, com todas as aprovações necessárias, e ainda assim funcionar mal porque não acompanha a maneira como aquele profissional organiza e comunica o próprio pensamento.

Participar da construção significa discutir o argumento, escolher exemplos e conferir as informações, reconhecendo quais histórias consegue contar com propriedade. O executivo não precisa desenhar cada slide, mas precisa ter condições de explicar o que está ali quando a tela falhar ou a conversa tomar um caminho que não estava previsto.

Imagem ilustrativa sobre o tema

Foto de Matthew Henry do Burst

Palestra, entrevista e painel pedem preparações diferentes

Em uma palestra, o executivo conduz um raciocínio ao longo do tempo, oferecendo contexto para que o público acompanhe a conclusão, enquanto uma entrevista exige escuta e capacidade de desenvolver uma resposta a partir da pergunta recebida. Já em um painel, sua contribuição depende também de como interage com os demais convidados, dividindo espaço e ajudando a aprofundar uma conversa que não controla sozinho.

Ignorar essas diferenças costuma produzir entrevistas com respostas decoradas e painéis em que cada participante apresenta seu monólogo, sem desenvolver o que acabou de ouvir. A mediação tenta estabelecer conexões, mas encontra pessoas preocupadas em encaixar suas mensagens, mesmo quando elas pouco acrescentam ao assunto em discussão.

A preparação deve incluir perguntas difíceis, limites de confidencialidade e temas sobre os quais ainda não há uma resposta, para que o executivo consiga lidar com essas situações sem recorrer automaticamente a uma fala institucional. Reconhecer uma limitação com clareza pode preservar a credibilidade, sobretudo diante de um público que conhece o assunto e percebe quando a resposta está apenas tentando contorná-lo.

Ensaiar é uma responsabilidade de quem aceita o convite

Ainda existe quem trate o ensaio como um constrangimento reservado a iniciantes, embora encontre tempo para revisar projeções e se preparar para uma reunião com investidores. A apresentação diante de centenas de profissionais recebe menos atenção, mesmo quando naquela plateia estão pessoas capazes de influenciar os próximos negócios da empresa ou os próximos passos da carreira de quem vai falar.

Um ensaio bem conduzido revela explicações confusas, excesso de informação e passagens que só fazem sentido na cabeça do apresentador, além de permitir ajustes de ritmo e duração. Se o conteúdo leva cinquenta minutos em uma sala vazia, será necessário fazer escolhas para respeitar os trinta minutos disponíveis, preservando o espaço das perguntas e a programação dos demais convidados.

Para quem sente muito nervosismo, familiarizar-se com o palco, testar o microfone e organizar anotações pode ajudar a tornar a experiência menos difícil. A preparação deve oferecer condições para que a pessoa compartilhe o que sabe, preservando sua maneira de falar e diminuindo a dependência de um roteiro que precisa funcionar exatamente como foi escrito.

O convite é uma oportunidade que exige trabalho

Cabe à organização do evento oferecer briefing claro, alinhamento e retorno honesto, assim como cabe à empresa e ao executivo reservar tempo para essa construção. Convidar alguém pelo prestígio e depois evitar qualquer ajuste por receio de contrariá-lo deixa a plateia arcar com a ausência de uma conversa que deveria ter acontecido nos bastidores.

Uma boa participação pode gerar relações comerciais, ampliar a visibilidade da marca e abrir caminhos para a carreira, desde que quem esteja ouvindo encontre consistência entre a autoridade anunciada e a experiência entregue. Esse interesse ganha continuidade quando alguém procura o executivo depois, convida para uma reunião ou lembra dele diante de uma oportunidade, motivado pelo que conseguiu compreender de sua contribuição.

É para favorecer esse encontro que a preparação existe, permitindo que a experiência do profissional apareça com clareza e que a empresa seja representada à altura do trabalho que realiza. Seria um desperdício investir tanto para colocar uma liderança no palco e depois precisar explicar à plateia que, pessoalmente, ela é muito melhor.

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Léo Kaufmann

Léo Kaufmann

Uma das principais vozes do RH brasileiro, Léo Kaufmann fala do mundo corporativo de um jeito que o próprio mundo corporativo nem sempre gosta de ouvir. Desmonta discursos bonitos com humor ácido e realismo para provocar decisões reais. Diretor de Conteúdo e Curador do RH Summit, conecta liderança, cultura e resultados de negócio sem romantização. Enquanto muitos dizem que pessoas são prioridade, Léo questiona onde estão os dados, as escolhas e os investimentos que comprovam isso. Se o objetivo é encarar dados em vez de discurso, o convite está feito.

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