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Coluna Exclusiva: LIDERANÇA FEMININA • por Kely Pereira

Chegar Não Basta: Os Desafios Silenciosos das Mulheres Executivas

Por muito tempo, a grande pergunta foi: Como fazer mais mulheres chegarem à liderança? Ela continua sendo necessária. Mas talvez já seja hora de acrescentarmos outras:

O que acontece com a mulher depois que ela chega? Como ela ocupa esse espaço? Quanto precisa provar para permanecer nele? E, principalmente, como sustenta uma posição de alta responsabilidade sem perder a si mesma pelo caminho?

É com essas perguntas que quero iniciar esta coluna. Não pretendo fazer deste espaço um lugar de respostas prontas. Quero que seja um espaço de diálogo, reflexão e, algumas vezes, de desconforto. Um lugar para conversarmos sobre liderança feminina com mulheres, mas também com homens. Com quem já ocupa posições executivas e com quem decide quem ocupará essas posições amanhã.

Depois de mais de 30 anos trabalhando com educação, gestão e desenvolvimento de pessoas, tenho observado que existem três desafios que atravessam de maneira especial a trajetória de muitas mulheres executivas. Eu os resumiria em três palavras:

Identidade. Influência. Sustentação.

Identidade: Quem sou eu quando chego lá?

Existe uma diferença entre conquistar um cargo e sentir que podemos ocupá-lo sendo quem somos.

Imagem ilustrativa sobre o tema

Durante décadas, os modelos de liderança foram construídos predominantemente a partir de determinadas características: firmeza, controle, racionalidade, competitividade, disponibilidade quase irrestrita. E muitas mulheres aprenderam que, para ocupar esses espaços, precisavam se adaptar.

Ser firme, mas não parecer agressiva. Ser acolhedora, mas não demonstrar fragilidade. Ser ambiciosa, mas não "demais". Ter autoridade, mas continuar sendo agradável. É uma equação difícil.

Por isso, talvez uma das maiores conquistas de uma mulher na alta liderança seja descobrir que não precisa se transformar em outra pessoa para ocupar uma posição de poder. A pergunta deixa de ser "como devo me comportar para caber aqui?" e passa a ser: "Que líder escolho ser agora que estou aqui?"

Influência: Competência não fala sozinha

Esse aprendizado pode ser especialmente desconfortável para mulheres que construíram suas carreiras acreditando que bastava trabalhar muito e entregar excelentes resultados.

Competência é fundamental. Mas competência silenciosa nem sempre chega às salas onde as oportunidades são decididas. Quanto mais avançamos na carreira, mais entram em cena elementos como visibilidade, relacionamentos estratégicos, influência, reputação e patrocínio, fatores decisivos em Executive Search.

Não estou falando de autopromoção vazia. Estou falando de compreender que construir uma carreira executiva também exige aprender a comunicar valor, ocupar espaços estratégicos e desenvolver relações de confiança.

E aqui deixo uma pergunta que pretendo retomar outras vezes nesta coluna: Quem fala de você quando você não está na sala? Porque muitas das decisões mais importantes sobre nossa carreira acontecem exatamente quando não estamos presentes.

Imagem ilustrativa sobre o tema

Sustentação: Chegar não pode custar você inteira

Talvez este seja o desafio que mais me inquieta. Falamos muito sobre chegar ao topo e pouco sobre como permanecer lá de maneira sustentável.

Quantas mulheres extremamente competentes estão exaustas? Quantas transformaram a sobrecarga em prova de competência? Quantas acreditam que precisam dar conta de tudo porque pedir ajuda poderia ser interpretado como incapacidade?

Alta performance não deveria significar alta exaustão. Existe um momento da trajetória profissional em que precisamos compreender que liderança também significa estabelecer limites, fazer escolhas, delegar, cuidar da própria energia e reconhecer vulnerabilidades.

Porque existe uma pergunta anterior a "como lidero minha equipe?": Como estou liderando a mim mesma? Talvez seja por isso que eu acredite tanto que toda liderança começa pela liderança de si.

E agora quero ouvir você

Esta coluna nasce para conversarmos. Sobre mulheres, liderança e poder. Sobre carreira, comportamento, escolhas, inteligência emocional, influência, vulnerabilidade, resultados e tudo aquilo que existe entre chegar a uma posição executiva e conseguir permanecer nela sem abandonar quem somos.

Não quero conversar apenas com mulheres. Quero também trazer para essa mesa homens que lideram mulheres, executivos que tomam decisões sobre sucessão e organizações que genuinamente desejam desenvolver novas lideranças.

Por isso, termino nossa primeira conversa com três perguntas:

  1. Quem você precisou se tornar para chegar onde está?
  2. Quem fala sobre o seu trabalho quando você não está na sala?
  3. E o que você tem feito para sustentar seus resultados sem perder a si mesma no caminho?

Identidade. Influência. Sustentação.

Talvez os três desafios estejam muito mais conectados do que imaginamos. Nos próximos encontros, vamos conversar sobre cada um deles. E quero ouvir você. Qual desses três desafios mais atravessa a sua trajetória hoje?

Para continuar essa conversa:

📚 Livro: Faça Acontecer — Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar, de Sheryl Sandberg. Independentemente dos debates posteriores em torno de algumas de suas ideias, o livro continua sendo um bom ponto de partida para discutir ambição, carreira, poder, escolhas e os obstáculos encontrados por mulheres que desejam ocupar posições de liderança.

🎬 Filme: Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures). A história de Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson vai muito além de superação. É uma excelente provocação sobre competência, reconhecimento, vieses, acesso às oportunidades e o que acontece quando uma organização demora a enxergar talentos que já estavam diante dela.

Até nossa próxima conversa.

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Kely Pereira

Kely Pereira

Kely Pereira transforma conhecimento em movimento e pessoas em protagonistas de suas próprias histórias. Educadora corporativa, consultora, palestrante, escritora e mentora de mulheres líderes, dedica sua trajetória ao desenvolvimento de pessoas e lideranças. Possui formação em Liderança Feminina pela Fundação Dom Cabral e Smith College e é cofundadora da SBAEL – Sociedade Brasileira de Aprendizagem Experiencial. Professora de pós-graduação, fez história ao se tornar a primeira mulher negra a ocupar a Diretoria de Pós-Graduação da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, abrindo caminhos para que outras mulheres também pudessem ocupar espaços de liderança.

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