Tem uma frase que escuto com uma frequência maior do que gostaria: "Fernanda, preciso reativar minha rede de contatos."
Geralmente essa frase aparece quando alguma coisa já aconteceu, seja uma reestruturação, uma troca de liderança, uma demissão inesperada ou simplesmente aquele momento em que um profissional percebe que o cargo que parecia tão seguro talvez não seja mais. E quase sempre existe pressa, porque a pessoa começa a pensar em quem conhece, com quem já trabalhou, quem poderia indicar seu nome e para quem poderia mandar uma mensagem depois de anos sem contato.
É justamente nessa hora que fica evidente uma coisa que aprendi acompanhando profissionais em momentos de transição: rede de relacionamento não é algo que a gente deveria lembrar que existe apenas quando precisa dela. Uma rede pode até ser reativada, mas confiança não se reconstrói na mesma velocidade.
E aí está uma das maiores diferenças entre ter muitos contatos e ter capital político.
1. Ter contatos não significa ter uma rede
LinkedIn cheio, agenda cheia, anos de mercado e passagem por grandes empresas aumentam o número de pessoas que conhecem você, mas não necessariamente o número de pessoas dispostas a colocar o próprio nome ao lado do seu. Essa é uma diferença que muitos profissionais só percebem quando precisam da rede.
Para mim, capital político começa justamente aí, quando alguém indica você para uma oportunidade que nem chegou ao mercado, menciona seu nome em uma conversa da qual você não participa, aceita fazer uma apresentação ou simplesmente diz para outra pessoa: "Conversa com ela, eu confio no trabalho dela."
Existe credibilidade sendo emprestada nesse movimento, e ninguém empresta a própria credibilidade para alguém apenas porque recebeu uma mensagem no LinkedIn depois de cinco anos. Isso acontece porque existe história, porque vocês trabalharam juntos, porque você ajudou aquela pessoa quando não precisava de nada em troca, compartilhou uma informação importante, fez uma indicação, abriu uma porta ou simplesmente manteve uma relação genuína ao longo do tempo.
São pequenas interações que, isoladamente, podem parecer pouco importantes, até o dia em que deixam de ser.
2. O melhor momento para cuidar da sua rede é quando você não precisa dela
Esse é um paradoxo que observo bastante no meu trabalho: quando a carreira está indo bem, o networking costuma perder espaço.
A agenda enche, as metas apertam, as responsabilidades aumentam e o profissional passa anos com a cabeça completamente voltada para dentro da empresa, entregando resultado, assumindo projetos, resolvendo problemas e crescendo. Enquanto tudo isso acontece, quase sem perceber, a rede vai ficando silenciosa. Até que alguma coisa muda.
A postura imatura é tratar rede como um recurso de emergência, algo que se aciona só quando o crachá está em risco. A postura de liderança madura trata rede como manutenção contínua: você manda uma mensagem porque lembrou da pessoa, parabeniza por uma conquista, compartilha algo que pode ajudá-la, apresenta duas pessoas que deveriam se conhecer ou simplesmente toma um café sem precisar terminar a conversa com um pedido.
Nada disso é complexo. O difícil é fazer com naturalidade e consistência durante os anos, sem esperar a urgência para começar.
3. Capital político também é construído quando você não está na sala
Há algum tempo, passei a pensar em networking de uma maneira diferente, e percebi que a pergunta mais importante não é "quem eu conheço?", mas "quem fala de mim quando eu não estou presente?"
Algumas das oportunidades mais importantes de uma carreira começam exatamente assim. Alguém está discutindo uma posição e lembra do seu nome, uma liderança precisa de determinada competência e pergunta se alguém conhece uma pessoa boa, um recrutador ou headhunter procura uma referência e alguém decide fazer a ponte. Você não estava naquela reunião, não viu a conversa acontecer e não pediu para ser mencionado, mas alguém lembrou de você.
Isso é reputação. E quando essa reputação vem acompanhada de relações construídas ao longo do tempo, ela se transforma em algo ainda mais poderoso: confiança circulando sem que você precise estar presente para defendê-la. Assim como o capital, relacionamentos também geram retorno sobre aquilo que foi construído ao longo do tempo.
4. Generosidade profissional não precisa ser ingenuidade
Dale Carnegie já defendia essa ideia em Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, ao afirmar que a melhor forma de construir uma relação duradoura é se tornar genuinamente interessado na outra pessoa, antes de esperar que ela se interesse por você. Keith Ferrazzi vai no mesmo sentido em Never Eat Alone, ao descrever generosidade profissional como investimento e não como transação: networking eficaz nunca acontece só quando você precisa de algo, ele acontece continuamente, através de pequenos gestos de conexão genuína, muito antes de qualquer necessidade concreta aparecer.
Nenhum dos dois está falando em dizer sim para tudo ou distribuir favores de forma artificial. Existe uma diferença clara entre generosidade e disponibilidade irrestrita: você pode ajudar alguém sem se anular, compartilhar conhecimento sem transformar cada interação em moeda de troca, abrir uma porta sem guardar mentalmente aquela ação como uma dívida a cobrar no futuro.
As redes profissionais mais fortes se constroem assim, com reciprocidade ao longo do tempo, mas sem contabilidade a cada gesto.
A crise não ativa a rede, ela revela a rede que você construiu enquanto não precisava dela.
Três perguntas dizem mais sobre a qualidade de uma rede do que o número de conexões no LinkedIn:
- Quem você procurou nos últimos meses para oferecer ajuda, compartilhar uma oportunidade ou contribuir de alguma forma, sem precisar de nada daquela pessoa?
- Para quem você abriu uma porta recentemente, seja fazendo uma indicação, uma apresentação ou colocando essa pessoa em contato com alguém da sua rede?
- Se você precisasse de alguma ajuda amanhã para se recolocar no mercado de trabalho, quem são as pessoas da sua rede para quem você poderia ligar?
Não precisa existir uma lista enorme. O tamanho importa muito menos do que a qualidade dessas relações.
A crise apenas revela a rede que já existia
Nunca é tarde para retomar relações. Pessoas se afastam, a vida muda, carreiras tomam rumos diferentes, e uma mensagem sincera depois de anos pode reabrir uma relação importante. O problema não está em procurar alguém quando precisamos de ajuda, isso todos fazemos em algum momento. O problema está em só procurar quando precisamos, porque existe uma diferença enorme entre perceber que faz tempo que você não conversa com determinada pessoa e perceber que passou anos sem conversar com praticamente ninguém fora da estrutura que sustentava o seu cargo.
Carreira se constrói nas entregas, nos resultados e nas competências que acumulamos, mas não só. Ela também se constrói nas relações que permanecem quando o crachá muda, nas pessoas que lembram do nosso trabalho quando surge uma oportunidade de Executive Search e, principalmente, naquelas que, quando nosso nome aparece em uma sala na qual não estamos, têm alguma coisa boa para dizer sobre nós.
Se você olhasse hoje para as últimas dez interações que teve com pessoas da sua rede profissional, quantas aconteceram sem que você precisasse pedir alguma coisa?
É o tipo de conta que vale fazer com calma, antes que uma crise a faça por você.
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