Já que a mente executiva gosta de números, quero começar com alguns.
A cada dez pessoas, apenas duas estão verdadeiramente engajadas com o trabalho. Outras seis cumprem suas tarefas, mas sem envolvimento genuíno. E quase duas estão ativamente desengajadas ou seja, desconectadas do trabalho, da liderança e da empresa.
Os dados são do relatório mais recente do Instituto Gallup sobre o estado do ambiente de trabalho no mundo.
Mas há outro número que chama ainda mais a atenção quando olhamos para ele com cuidado: a maior parte da queda recente no engajamento vem justamente das lideranças.
O engajamento dos gestores, que era de 31% em 2022, caiu para 22% em 2025. Em apenas um ano, a queda foi de cinco pontos percentuais. Enquanto isso, o engajamento de quem não ocupa posições de gestão permaneceu praticamente estável.
Durante mais de 20 anos como executiva de Desenvolvimento Humano e Organizacional, acompanhei de perto os desafios de quem precisa sustentar resultados, tomar decisões difíceis e, ao mesmo tempo, mobilizar pessoas. Hoje, à frente da Tudo Talentos, continuo trabalhando com lideranças de diferentes contextos e percebo algo que os números agora ajudam a dimensionar: estamos exigindo cada vez mais dos líderes e conversando muito pouco sobre o que essa pressão produz dentro deles, na mente executiva.
O Incômodo que Nasce da Pressão
É desse incômodo que nasce esta coluna.
A cada quinze dias, Mente Executiva será um espaço para falarmos sobre ansiedade sob alta pressão, inteligência emocional, autorregulação, prevenção do burnout e comunicação em momentos de crise. Sempre com um olhar para os talentos e pontos fortes, porque aquilo que temos de melhor também pode nos fragilizar quando passa a funcionar sem consciência e sem medida.
E talvez você não precise de uma pesquisa para perceber o que está acontecendo.
Basta observar as reuniões cada vez mais tensas, as agendas sem espaço, as decisões que precisam ser tomadas com informações incompletas e a sensação constante de que tudo é urgente e que o tempo é escasso. A liderança está sendo pressionada pela alta direção, demandada pelos liderados e pares e desafiada por mudanças que não compreendemos.
Quando a Ansiedade Veste a Armadura da Excelência
O problema é que essa pressão nem sempre vem acompanhada de um pedido de ajuda. Na alta gestão, a ansiedade costuma se apresentar muito bem vestida. Ela pode parecer comprometimento, agilidade, excelência, pensamento estratégico e senso de responsabilidade.
E é neste ponto que os pontos fortes, se transformam em pontos fracos:
- A responsabilidade, quando não é regulada, se transforma em sobrecarga.
- O olhar estratégico, tão valorizado nas organizações, pode se converter em antecipação permanente de riscos. O líder deixa de analisar possibilidades e começa a viver mentalmente todos os problemas antes mesmo que eles aconteçam.
- A excelência pode se transformar em perfeccionismo e ninguém do seu time consegue entregar da forma que você precisa.
- A habilidade de construir relacionamentos pode dificultar as conversas que precisam ser feitas, especialmente quando existe o medo de decepcionar alguém.
Já percebeu isso?
É assim que aquilo que ajudou uma pessoa a chegar à liderança – ou a ser recrutada por um processo de Executive Search – também pode começar a adoecê-la. Para continuar funcionando, muitos executivos vestem uma armadura. Escondem as dúvidas, silenciam os limites, centralizam as decisões e procuram transmitir segurança mesmo quando internamente estão tentando organizar o próprio caos.
O Preço do Controle e o Valor da Vulnerabilidade
Brené Brown nos ajuda a compreender que essa armadura pode até produzir uma aparência de controle, mas também reduz a conexão, a aprendizagem, a confiança e a coragem necessárias para liderar em cenários de incerteza.
Vulnerabilidade, na liderança, é conseguir dizer:
“Ainda não temos todas as respostas.”
“Essa decisão envolve riscos.”
“Preciso ouvir outras perspectivas.”
“Errei na forma como conduzi essa conversa.”
“A situação é difícil, mas não precisamos fingir que não é.”
Talvez o primeiro passo para desenvolver uma mente executiva não seja aprender uma nova técnica de gestão. Talvez seja reconhecer o que acontece dentro de nós quando a pressão aumenta e escolher conscientemente como agir.
Quero fazer desta coluna um espaço seguro para conversas que nem sempre encontram lugar na agenda executiva: nossos limites, nossas escolhas e o impacto emocional de liderar. Porque fortalecer a mente executiva não significa eliminar a vulnerabilidade, mas aprender a liderar também a partir dela.
Para começar essa conversa, deixo uma pergunta para a sua próxima reunião difícil:
Sob pressão, qual dos seus talentos deixa de ser uma força e começa a funcionar como armadura?